A peregrinação a Santiago de Compostela foi provavelmente a primeira grande rota de turismo de massa da história. Na idade média, milhares de fiéis de todos os cantos da Europa enfrentaram os mais diversos desafios para chegar ao lugar onde, acredita-se, foi enterrado o apóstolo Santiago. Numa época em que a maior parte da Península Ibérica ainda estava sob domínio muçulmano, a igreja católica fomentou a imagem de Santiago como santo guerreiro e estimulou a peregrinação em massa ao seu túmulo.

Para facilitar o acesso, os diferentes reinos situados no que é hoje o norte da Espanha ergueram uma invejável infraestrutura – fortalezas, estradas, pontes, hospedarias, mosteiros e catedrais. Estas construções deram origem a diversos povoados e cidades que, mais de mil anos depois, continuam acolhendo peregrinos e aventureiros. Junto a montanhas cobertas de neve, vales incrivelmente verdes, bosques de contos de fadas e campos intermináveis de trigo, esses povoados e cidades são hoje a grande atração do caminho. Abaixo, alguns destaques.

01. Saint Jean Pied-de-Port

Não existe propriamente um “caminho” de Santiago, mas sim diversas rotas que levaram os peregrinos desde o século XI até o túmulo do apóstolo. A maioria das vias que vinham do norte e centro da França convergia para a pequena cidade de Saint Jean Pied-de-Port, originando o chamado caminho francês. A cerca de 800 quilômetros de Santiago, Saint Jean é hoje um dos pontos de partida preferidos dos peregrinos, especialmente daqueles que não querem perder a oportunidade de cruzar os Pirineus. A travessia das montanhas que separam a Península Ibérica do resto do continente é possivelmente a etapa mais difícil e mais bela de todo o caminho francês.

Saint-Jean Pied-de-Port é uma cidade pequena e charmosa, com pouco mais de mil habitantes. A parte antiga é cercada por muralhas e guarda os restos de uma fortaleza que vigiava os vales e montanhas da região. A igreja de Nossa Senhora e a maior parte dos edifícios medievais se debruça sobre a rua principal, cortada ao meio por um rio de águas incrivelmente escuras.

caminho de Santiago de Compostela - St. Jean Pied-de-Port

Neblina cobre St. Jean Pied-de-Port, um dos pontos de partida mais populares do caminho | Pedro Fachada

02. Pamplona

Pamplona é a primeira cidade “grande” no caminho francês. Antiga capital do reino de Navarra, seu centro histórico amuralhado tem traçado medieval que esconde palácios renascentistas e uma das mais belas catedrais da Europa. Nas sacadas dos edifícios estreitos, bandeiras bascas nos recordam a todo instante que estamos numa Espanha diferente. O centro histórico se mistura  elegantemente com bairros modernistas, marcados por largas avenidas e numerosas praças e jardins. Com duas boas universidades, Pamplona é uma cidade cheia de jovens, desafiando o padrão demográfico dominante que se percebe na maioria das cidades do caminho.

caminho de Santiago de Compostela - centro histórico de Pamplona

A noite cai sobre o centro histórico de Pamplona | Pedro Fachada

03. Santo Domingo de la Calzada

Santo Domingo de la Calzada é um dos muitos povoados do caminho que nasceu em função da peregrinação a Santiago. Seu fundador, Domingo Garcia, foi um eremita que se instalou na região e construiu com as próprias mãos uma estrada (calçada), uma hospedaria e um hospital para dar assistência aos viajantes. A cidade também ficou famosa pelo milagre da galinha. No século XIV, um jovem peregrino foi falsamente acusado de roubo e condenado à morte. Quando seus pais se preparavam para enterrar o corpo, o rapaz contou que permanecia vivo pela graça do santo. Os pais imploraram então ao juiz pelo corpo do filho “morto”. Enquanto jantava, este zombou da ideia de que o condenado pudesse estar vivo, só se convencendo do contrário quando a galinha assada que devorava começou a cantar. A catedral mantém um galo e uma galinha vivos num altar, junto às relíquias do fundador da cidade.

caminho de Santiago de Compostela - Santo Domingo de la Calzada

Vista dos telhados de Santo Domingo de la Calzada | Pedro Fachada

04.Viloria de Rioja

Viloria é um desses povoados quase esquecidos do caminho –  pouco mais de 60 habitantes –  mas cheios de caráter. A grande atração para nós, brasileiros, é o albergue de Acácio e Orietta, que como o nome sugere é tocado por um casal formado por um brasileiro e uma italiana. Amigos de Paulo Coelho, dedicam cuidados quase maternais aos seus hóspedes. Este é o lugar certo para tratar bolhas do pé, tendinites ou qualquer outro mal que apareça na jornada.

caminho de Santiago de Compostela - Viloria de Rioja

Arquitetura típica da pequena Viloria de Rioja | Pedro Fachada

05. Burgos

Antiga capital de Castela, Burgos é uma das cidades mais fascinantes da Espanha. Sua maior atração é a catedral gótica, construída, remodelada e ampliada ao longo de séculos. Praças e ruas renascentistas se entrelaçam no atraente centro histórico. Aproveitando a proximidade da serra de Atapuerca, onde foram encontrados os vestígios mais antigos da presença humana na Europa, a cidade sedia o imperdível Museu da Evolução Humana.

caminho de Santiago de Compostela - catedral de Burgos

A imponente catedral de Burgos | Pedro Fachada

06. Leon

Outra das cidades cuja origem remonta ao período anterior à formação da Espanha atual, seu casco antigo é um labirinto de ruas estreitas e becos, hoje tomados por um sem número de animados cafés, bares e restaurantes. Sua catedral é famosa pelos 737 vitrais, que levaram oito séculos sendo instalados.

caminho de Santiago de Compostela - Plaza Mayor de Leon

A sempre animada Plaza Mayor de Leon | Pedro Fachada

07. Astorga

Com mais de dois milênios, Astorga era centro de uma área mineradora importante no período romano. Daqui saia um caminho que levava, pelo sul da França, ouro e prata para Roma. Parte dessa via seria mais tarde aproveitada pelos peregrinos a Santiago, integrando o que hoje conhecemos como caminho francês. Ao lado da imponente catedral gótica se ergue o palácio episcopal, obra de Gaudí. Como quase todas as construções do arquiteto catalão, é um projeto bastante polêmico. Muitos críticos insistem que o palácio deveria ter sido construído na Disneylândia.

caminho de Santiago de Compostela - Palácio Episcopal de Gaudi

O controverso Palácio Episcopal de Gaudi | Pedro Fachada

08. Cruz de Ferro

A Cruz de Ferro marca o ponto mais alto do caminho francês. A rigor, não é uma parada a não ser para aqueles que resolvem descansar no local – quando o vento forte permite. Tem apenas uma pequena capela e o mastro alto onde se assenta uma cruz. Mas é um dos lugares de maior simbolismo do caminho. A tradição manda que, ao chegar à Cruz de Ferro, os peregrinos depositem uma pedra na sua base e façam seus pedidos.

caminho de Santiago de Compostela - Cruz de Ferro

Peregrinos depositam suas pedras na Cruz de Ferro | Pedro Fachada

09. O Cabreiro

O Cebreiro é um desses povoados do caminho cujo número de casas – todas invariavelmente de pedra – se conta nos dedos das mãos. É no entanto um dos mais famosos graças à sua espetacular localização no cume de uma serra e ao que se supõe seja seu passado celta. Tenham ou não druidas habitado estas paragens, muitos exaltam seu caráter mágico. O misticismo do local é reforçado pela veneração ao milagre da hóstia. Conta a lenda que no século XIII, num dia particularmente frio, um único fiel foi à missa e o padre teria lhe recusado a comunhão. A hóstia então se transformou em carne viva, enquanto uma imagem em madeira da Virgem se curvou. Mesmo aqueles viajantes que não acreditam em milagres tendem a concordar que o Cebreiro tem uma energia toda especial.

caminho de Santiago de Compostela - Cebreiro

Montanhas parcialmente escondidas em torno de o Cebreiro | Pedro Fachada

10. Santiago de Compostela

Entre as paradas no caminho, não podia faltar Santiago, destino final para os cerca de 200 mil peregrinos que em 2012 completaram pelo menos 100 quilômetros caminhando ou 200 quilômetros pedalando em direção à cidade. Todas as ruas do centro histórico convergem para a praça principal, onde se situa a catedral, uma das mais impressionantes construções religiosas do mundo. A grande atração é a missa do meio-dia com a bendição dos peregrinos e a famosa cerimônia do botafumeiro. No final da missa, um turíbulo gigante é lançado ao ar, inundando a catedral com o aroma de incenso. Diz-se que a tradição remonta à idade média, quando o incenso mitigava o mau cheiro dos viajantes. Banhados ou não, hoje os peregrinos dão um toque especialmente alegre à cidade. Todos parecem se conhecer e trocam cumprimentos. Apesar das marcas de cansaço, é visível nos rostos o orgulho de ter feito o caminho.

caminho de Santiago de Compostela - catedral de Santiago de Compostela

Iluminação noturna da catedral de Santiago, destino de 10 entre 10 peregrinos | Pedro Fachada

11. Finisterra

Finisterra era considerada o fim do mundo na antiguidade. Na idade média, os antigos ritos pagãos se misturaram à tradição cristã. Nasceu assim o costume de prolongar o caminho de Santiago, terminando a romaria à beira do mar, no final do mundo conhecido. Aqui os peregrinos aproveitavam para queimar suas roupas usadas antes de iniciar o caminho de regresso. Mais simbólico impossível. O cabo de Finisterra permanece como um lugar de incrível beleza e merece ser visitado, mesmo por aqueles que vejam Santiago como seu destino final.

caminho de Santiago de Compostela - Finesterra

Paz no fim do mundo | Pedro Fachada

 

Pedro Fachada é economista e “viajeiro” frequente. Devorou o caminho de Santiago ao longo de 34 dias entre maio e junho de 2013

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