Um livro de páginas abertas cujo último capítulo está sendo escrito naquele exato momento. Esta era a sensação do Sr. Hugo Vidal, 84 anos, que remontou, em julho passado, a parte final do trajeto que fez do Brasil ao Alasca, em 1955.
A bordo de um Jeep com mais dois amigos, Charles Downey e Jan Stekly, hoje já falecidos, Sr. Hugo saiu de São Paulo rumo ao Canadá, inicialmente. O intuito do trio de aventureiros era participar do primeiro Jamboree – grande encontro de escoteiros – a ser realizado no continente americano. “Isso gerou um interesse, uma faísca… e se a gente fosse por terra? Era uma ideia totalmente maluca, mas um desafio difícil de ignorar”, relembra Sr. Hugo.
A conta e o risco
Assim nasceu a “Operation Pineapple” ou, em bom português, a “Operação Abacaxi”. Eles mesmos tinham consciência de que o projeto tinha tudo para dar errado, dos riscos que corriam numa viagem longa, da falta de informação sobre o percurso em um tempo em que não tinha Google, como frisou aos risos o Sr. Hugo.
Não era só esse o problema, contudo. Sem recursos próprios, para que o plano saísse do papel, era necessário que fosse financiado. Foi quando tiveram a brilhante – e arriscada – ideia de oferecê-lo para empresas brasileiras fabricantes de autopeças. “Era uma oportunidade ímpar de demonstrar na prática a qualidade da peças nacionais, o quanto que as peças podiam ser confiáveis. Peça brasileira era abacaxi na época”, recorda o velho escoteiro.
A coroa do abacaxi
A proposta colou. No fim, 25 empresas pegaram carona no devaneio dos três jovens a fim de torná-lo realidade. À coroa da fruta coube a cabeça dos novos corajosos reis da estrada. E dá-lhe desafio! Capotaram com o Jeep entre a Costa Rica e a Nicarágua, socorreram caminhões no barro da Colômbia, na areia do deserto e até no gelo.
Já viciados na adrenalina e com o sonho de chegar ao Jamboree atingido, resolveram tentar a última fronteira: o Ártico. Dormiram várias vezes na neve, penaram para achar combustível no meio do nada, enfrentaram o frio glacial de novembro e encararam caminhos em condições precárias. “No Alasca as estradas não eram como hoje, era tudo pedregulho congelado”, lembra Sr. Hugo. Apesar de tudo jogar contra, chegaram a Fairbanks, uma das principais cidades do último estado norte-americano. Objetivo cumprido. Hora de voltar para casa (dirigindo).
O bom filho à casa torna
Ao livro, no entanto, faltava uma conclusão. E eis que 62 anos depois, a lendária rota chamava mais uma vez seu audaz passageiro para a derradeira volta. Em comemoração aos 75 anos da Alaska Highway e dos 150 anos do Canadá, o Sr. Hugo retornou à estrada que traçou a história de sua vida. O convite veio de uma conjunção de fatores que se não forem atribuídos ao destino, nada mais pode explicar.
Décadas após o incêndio do lodge que o trio havia se hospedado nas imediações de Whitehorse, no norte canadense, seu livro de registro foi encontrado intacto com uma mensagem, digamos, um tanto singular. A presença de jipeiros do Brasil por essas terras gélidas aguçou a curiosidade do escritório de turismo do Território de Yukon.
Ao mesmo tempo, o comboio Alaska or Rust, que partia de diferentes partes dos Estados Unidos em direção a Fairbanks, preparava mais uma expedição. Transmissão de pensamentos, colisão de ideias e cá estava novamente o Sr. Hugo, que até agora processa todos os recentes acontecimentos: “faz dias que estou tentando compreender minhas emoções e meus sentimentos… memória, lembrança dos amigos que já se foram e o mistério das coincidências que me trouxeram aqui de novo”.
* O livro que narra a aventuras do Sr. Hugo e seus dois amigos, ainda sem título definido, tem previsão para ser lançado até o final de 2017.
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Arthur Seixas é fotógrafo e jornalista especializado em viagens, turismo, paisagens e vida selvagem